Professor alagoano relata resistência em Curitiba

Pude assistir O Processo, e vi mais uma vez o instituído engolir a verdade dos fatos, mastigar e devolver uma massa disforme aos olhos…

Pude assistir O Processo, e vi mais uma vez o instituído engolir a verdade dos fatos, mastigar e devolver uma massa disforme aos olhos dos legitimadores, segundo o gosto da força arregimentada para roubar o poder e desclassificar a democracia.

Em uma analogia kafkiana, o contexto do golpe deixou a nação muito mais dentro de O Castelo. Do qual não se sabe ao certo como se entra, e muito menos como se sai. A instituição tem as rédeas e não é pareada pela razão.

Mas é no lado de fora do Castelo que o Brasil está. A representação popular não tem demorado muito nos lados de dentro, pois os 508 anos que temos não foram suficientes para a libertação da ideologia e dominação da colônia, na subjetividade brasileira. Mantemos os colonizadores com as chaves nas mãos.

O projeto de governo progressista que o PT implementou, com muitas compreensíveis falhas,  não pára de receber Processos e Golpes, para que a reconstituição arcaica do Castelo se cumpra, exportando patrimônios, tal qual ocorreu no passado.

Quero então ressaltar a importância histórica da resistência aos muros. O valor moral e político de cada mulher ou homem que acampa e resiste contra a solidão de Lula, o preso político que o Castelo criou, na determinação institucional forjada pelos interesses dos que atuam na dominação do globo.

O professor e presidente da Associação dos Docentes da Universidade Federal de Alagoas – ADUFAL,  Jailton Lira, compartilhou em um relato na rede social, sua ida a Curitiba, a república castelar que hoje tem envergonhado a história da democracia sob a atuação passional do juiz Sergio Moro, cada vez mais pontuado como um negociador do capital internacional.

Eis partes de uma verdade que nos orgulha, mas também nos preocupa, e conclama apoio, participação e acima de tudo, compreensão deste outro lado do processo.

” No fim da tarde do dia 14, segunda-feira, como parte da programação daquele dia após as mesas de debate na reitoria da UFPR, realizamos uma aula pública na vigília Lula Livre, próximo a algumas dezenas de metros da sede da polícia federal, local da prisão política do ex-presidente Lula.”

” Seguem algumas impressões a respeito do que presenciei. Inicialmente, vale ressaltar que existem dois espaços de mobilização distintos, com o mesmo propósito. Há o acampamento Marisa Letícia, onde estão concentrados trabalhadores rurais, em sua maioria, mas também representantes de sindicatos, partidos políticos e demais movimentos sociais.”

” Devido ao intenso frio, não pude ir lá conhecer, mas nos informaram que é um local sem pavimentação, com uma mínima estrutura de funcionamento e completamente isento de segurança. Os alimentos são geralmente doados por movimentos sociais e por moradores da região. Foi lá em que ocorreu a tentativa de homicídio com arma de fogo por parte de um grupelho fascista (impune até agora), com ao menos uma vítima, que felizmente sobreviveu. Estas aliás, são as principais queixas dos ocupantes, a ausência de estrutura e segurança. É importante frisar que o inverno brevemente irá começar, o que significa dizer que as condições da ocupação irão se tornar ainda mais difíceis. ”

” Diariamente, parte do movimento se dirige à vigília para dar o “bom dia Lula” às 8:30 h e o “boa noite Lula”, me parece que às 19 h. O ex-presidente tem mais facilidade em ouvir o ” bom dia”, devido ao horário do seu ” banho de sol”, pelo o que me foi relatado. Na vigília, eles se juntam a outras centenas de pessoas de outros movimentos e entidades, em sua maioria de Curitiba, mas também dos estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, bem como de pessoas vindas de todas as partes do País. Foi na vigília que um delegado da polícia federal quebrou os aparelhos de som, segundo ele, decorrente de um “surto”. Esse delegado, aliás, mora a poucas quadras da polícia federal. No bairro, também residem outros policiais.”

“A vigília tem uma programação diária, que inclui atividades culturais, atos políticos e aulas públicas, como esta da qual participei. Na segunda-feira, havia cerca de 700 pessoas participando. O ex-presidente Lula está detido no quarto andar da PF, no lado oposto ao movimento de vigília. No alto, ao fundo do movimento, é visível a imagem do prédio, com suas janelas, que ficam acesas à noite; as viaturas policiais ficam ao redor, como demonstra uma das fotos que coloquei aqui. Não é possível chegar próximo ao prédio sem autorização. No local, são vendidos alimentos, produtos artesanais, camisetas, bonés, dentre outros adereços. A prefeitura de Curitiba já proibiu utilização de aparelho de som (usa-se um megafone, muito baixo por sinal) e o poder judiciário proibiu acampamentos no local. As ameaças de “reintegração” são constantes. ”

” Mas não param por aí. Fascistas ligados ao MBL vivem provocando os participantes da vigília, com panelaços em frente ao movimento, disparos de fogos de artificio e insultos gratuitos. Estes panelaços, fogos de artificio e insultos visam criar alguma reação dos participantes da vigília e incomodar os moradores da região, os pretextos que faltam para a prefeitura e o poder judiciário exigirem o fim da mobilização, que diga-se de passagem, demonstra ser completamente pacífica. Esse grupo do MBL fica em outro quarteirão próximo a vigília, em número bem menor. Na esquina que dá acesso a vigília estava uma viatura da polícia militar e no entorno da polícia federal mais acima, viaturas da policia federal. Estas, muitas vezes passam entre os manifestantes, no meio do ato público. ”

” Também conheci próximo ao local da vigília a casa da democracia, uma residência alugada que reúne sites e blogues contra – hegemônicos onde trabalham jornalistas independentes. Nesse lugar também são concedidas as entrevistas coletivas, como a que nosso grupo de professores fez neste dia.”

” Não se sabe quanto tempo os movimentos políticos e sociais continuarão alí. Cada dia acontecem novas ameaças da direita e de desocupação coercitiva por parte do poder público, assim como outras tantas privações. Por tudo isso que relatei, estão de parabéns todos àqueles companheiros que, diariamente, distantes das suas famílias e arriscando-se pessoalmente no acampamento Marisa Letícia e na vigília Lula Livre, dão esse verdadeiro exemplo de democracia ao Brasil.”

A experiência do companheiro nos traz informações importantes e ao mesmo tempo atenta para a necessidade de procuramos ajudar de alguma forma aqueles e aquelas que lá estão, representando nossos sonhos democráticos e nossa indignação com a prisão política de Lula.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *