Para não enterrar Nô Pedrosa

Esperei a poeira da emoção baixar para voltar a escrever sobre a marca que Nô Pedrosa deixou na história de Maceió. Seu assassinato foi…

Esperei a poeira da emoção baixar para voltar a escrever sobre a marca que Nô Pedrosa deixou na história de Maceió. Seu assassinato foi uma das circunstâncias que mais me abalaram em 2017, um sacrifício imposto ao corpo magro de um velho no Natal. Nossa violência de estimação age assim.

Desde o convívio com seu rosto nos momentos de lutas e protestos, à vizinhança como residente do Condomínio Horizontal Mangabeiras, lhe devotei imenso carinho. E não podia deixar de ver a forma precária como terminou seus dias.

Apesar de não conseguir digerir os louvores dos que se lhe apossaram do cadáver, tendo lhe esquecido em vida, a força do seu exemplo firmou seus passos em uma história da qual nada mais lhe arrancará. Sim, meu velho, você conseguiu! Sem retórica conivente, sem negociar os pensamentos e convicções, você arregimentou uma força política de dá inveja em muitos farofeiros que se dizem de esquerda.

Quando a vida de Nô se abria aos obscuros moradores de rua de Maceió, sendo acariciado apenas pelas crianças que estudavam no turno matutino da Escola Municipal Cicera Lucimar, no bairro de Mangabeiras, às quais verdadeiramente fará falta no ano letivo de 2018, os importantes estavam em suas próprias ilhas, mas a rota daquele que chamam de anarquista estava posta, em duríssimas condições existenciais.

Ouvi alguns falando sobre ele como se fosse sobre-humano, romantizando sua vida de quase mendicância, sua solidão perdida em fatos históricos que já confundia ao relatar, e o pior, considerando o assassinato uma espécie de coroação da revolução de morar em uma casa sem porta.

Muitas análises atuais sua inteligência inegável já não alcançava, pois mesmo um leitor assíduo necessita um mínimo de conforto e cuidado para gozar amplamente das faculdades mentais, e, com saúde, elaborar, reelaborar. Por essa razão, alguns discursos sobre seu heroísmo doem em meus ouvidos.

Contudo, o objetivo é focar na força de uma adesão real, como aquela que Nô Pedrosa sustentou, exemplificando nossa fraqueza de comprometimento político e amor aos ditames do poder, ainda que sob véus.

Nô recusou os véus. Mostrou que uma casa sem portas não é apenas uma afronta ao sistema de organização da vida urbana em uma capital violenta, mas é também uma casa na qual só entram a necessidade e o transtorno, embora fosse sustentada pela subversividade mais fina que Alagoas teve nas últimas décadas: a sua.

Folclorizar seu modo de vida ou utilizar essa forma de existir para justificar o assassinato daquele questionador perpétuo, é exibir reduzida capacidade de entendimento. Pois o mais empenhado analista ainda não conseguirá traduzir tudo, apreender a grandeza da atuação política do velho Pedrosa, ora circunspecto, ora irreverente, mas sempre de luta!

Que se faça justiça à sua história! Que se escrevam artigos acadêmicos sobre ele! Que não enterremos Nô, aquele que resistiu até o fim e envergonhou nossas covardias, exibiu a podridão da cidade e flutuará para sempre sobre as calçadas do seu cotidiano, onde sempre o enxergarei sorrindo, ou não.

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