O espectro fascista sobre moradores de rua: “Cê tá me entendendo?”

Minha amiga é Assistente Social e como muitas outras pessoas que ainda guardam um coração no peito, ficou estarrecida com esse relato nascido do…

Minha amiga é Assistente Social e como muitas outras pessoas que ainda guardam um coração no peito, ficou estarrecida com esse relato nascido do chão da rua.

Essa foi a fala indignada dela:

“Cê tá me entendendo?”

Esse relato me doeu fundo, pois tenho percebido o sumiço de pessoas em situação de rua que ficavam aqui na minha quadra e na porta dos supermercados que vou… vcs estão entendendo!? Ou vcs estão entendendo e não se importam!?

 

Este é o relato compartilhado de Lucas Coelho:

 

O diálogo se deu ontem à noite, no BH, rua Augusta, São Paulo, com um dos muitos indivíduos do povo da rua.
Estava sentado tomando uma lata de cerveja e olhando os jovens, pensando no quanto eles estavam alienados da vida vivendo em sua bolha, quando fui empurrado pra fora da minha, por um marmitex cheio de carcaça suja de frango. Era Zé Pretinho.
– Isso é comida de gente, dotô?
Olhei assustado pra cima e encontrei o rosto de um homem negro, 30 e poucos anos, sujo, dente da frente quebrado, chorando.
– Eu não roubo ninguém, eu juro. Só quero parar de comer esse lixo.

Pedi pra preparar um marmitex pra ele. Zé Pretinho sentou no chão ao meu lado, falei pra ele abrir uma cadeira.
– Tô muito fedido, dotô. Tem dois dia que não tomo banho. Desde que o bolsonaro assumiu a gente se reveza pra avisar quando a polícia chega. Eles tão torturando a gente.
– Mas Bolsonaro não assumiu.
– Pra você né dotô? Pra gente a polícia já chega gritando que é melhor a gente já í si acostumando.
– Mas…
– Não deixe esse homi entrar, dotô. Fala com o povo, escreve no facebook isso. Escreve essa história.
– Qual seu nome?
– [ ele me disse seu nome], mas me chamam de Zé Pretinho. Não escreve meu nome no facebook não, dotô, porque eles tão com meu documento. Se pegá meu nome lá, eles vem atrás de mim.

Achei que poderia ser paranóia e falei pra ele que a polícia não pode tomar o documento de ninguém.
– De você não, né dotô? Você tem essa roupa bonita. Se eles pegam seu documento no dia seguinte tem gente dos jornal querendo sabê o que aconteceu. Mas da gente? Eles tão pegando o documento de todo mundo. Depois batem na gente. Eu tô com dor de dente, esse aqui [ me mostrou o dente da frente quebrado]. Eles me chutaram ontem quando eu tava dormindo. Reviraram minhas coisa. Não acharo droga. Eu não uso droga, dotô. Quando tá frio, eu tomo cachaça, isso eu tomo, mas eu não vou pra droga não. Quem vai lá pra baixo [ entendi que ele se referia à cracolândia ] não volta não. Eu quero voltar. Eu quero, dotô, juro que quero. Eu já tive ferro véio, vendia coisa, trabalho honesto. Num nasci na rua não. Eu nasci brasileiro.

– Tá, mas porque eles iam pegar seu documento? O que eles ganham com isso?
– ô dotô, cê parece inteligente, mas CÊ É BURRO? Pensa aí dotô.

Fiquei em silêncio e olhei pra Zé Pretinho. Percebi que o rosto estava molhado. Ele estava chorando.
– Eu não sei, não faz sentido tomar o documento de tanta gente pra nada.
– PRA GENTE NÃO VOTÁÁÁÁ, DOTÔÔÔÔ. QUEM NUM TEM DOCUMENTO NUM VOTA. CÊ TÁ ME ENTENDENDO? EU SÔ DA RUA, MAS EU NÃO SÔ BURRO. A GENTE NÃO É BURRO. A GENTE É BRASILEIRO QUE TÁ NA RUA, MAS É BRASILEIRO, CÊ TÁ ME ENTENDENDO.
– Você vota?
– Eu votava. Eu ia votá no Suplicy, se tivesse cos documento. O povo gosta dele. Mas nem isso a gente pode. Aí onti policial falô que ele não entrô, mas eu falei pro povo que é mentira. É mentira né dotô?

O marmitex chegou e eu entreguei a ele, mas não tive coragem de dizer que o Suplicy não entrou.
– Num deixa esse homi entra não dotô. As polícia vão atirá na gente pra matá. Eles já falaram isso.
– …
– Eles falam isso sem dó, com sangue no zóio. Precisa vê o ódio deles. Eles chuta homi, muié, criança. Fala que vai robá nossas criança e a gente num vai vê mais. Eles num são gente dotô.
– Mas porque vocês…

Parei a frase, porque passou um grupo de jovens gritando uma música qualquer. Ia perguntar porque eles não denunciavam pra polícia isso, mas me dei conta do quanto essa frase era estúpida pra ele.

Fiquei pensando no quanto essa frase vai ser estúpida para muitos de nós.
Talvez até pra muitos daqueles jovens. Talvez pra mim. Talvez pra você.

Certamente para o Zé Pretinho.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *