O encontro de Marcos e Marielle, por Gerlane

Logo cedo meu coração enterneceu num aperto humano de dor sentida e resiliente penar, motivado pela análise de um texto pequeno, mas grande em…

Logo cedo meu coração enterneceu num aperto humano de dor sentida e resiliente penar, motivado pela análise de um texto pequeno, mas grande em alcance, que uma garota muito especial colocou em sua timeline, na rede social facebook, a Gerlane Guedes.

“Mãe, ele viu que eu tava com camisa da escola?”

Mas a vista se apagando. Ficando frio e a voz da mãe mais longe. 
Um silêncio começou na cabeça. De longe os gritos e as pessoas falando.

Ele abre os olhos vê um povo correndo, a rua toda parada, ele não tá mais ali, a mãe chorava na rua, ele olha pro lado, e vê uma mão que se estende, uma mulher negra, um braço lindo e mãos quentes, ela também era dali, ela também morreu cedo, ela também sentiu dor, ela lutava por ele, e até hoje nada se sabe, quem matou e porquê, é que eles nunca aparecem, mas agora não importa, ela leva ele por cima do mar, o vento bate no rosto, a Maré fica longe, ele entende o sentido, agora a vida é outra mas aqui nesse chão, o seu enterro é duro, seus colegas chorando, a camisa da escola em cima do caixão.

Imaginar Marielle resgatando o espírito de Marcos Vinícius foi como ver uma flexa de luz rasgando a consciência ou a indiferença de um país assassino de si mesmo, em complexo canibalismo futurístico, devorando a própria poesia.

Mas não posso ignorar na mesma rede social os memes horrorosos acusando as vítimas de culpadas. A associação imediata às drogas, ao tráfico, e a justificativa antiga, que só consegue surtir efeito sobre um povo desumanizado como nós, brasileiros, nos tornamos.

A asséptica formação da família de bem brasileira jogou essa família nos poços fundos do egocentrismo destruidor. Retirou sentimentos e desligou da base planetária, que nos irmana, como portadores do mesmo senso de dignidade humana.

Marielle foi violentada em seu direito de viver na terra, mas a família de bem justificou sua morte violenta!

Marcos Vinícius foi violentado em sua jovem vida, e a sociedade limpa e cheirosa justificou sua morte violenta!

Todos os dias as balas cruzam os corações dos deserdados, e o silêncio dos bons só é quebrado com acusações e justificativas que retroalimentam a violência.

Marielle não foi a primeira mulher negra e guerreira, morta. Marcos também não foi o primeiro adolescente que morreu assim, nas ruas do Brasil guardando balas destruidoras no corpo. Mas não serão os últimos, e todos nós sabemos disso.

Pela desumana covardia, que as flexas de luz que riscam os céus do Brasil depositem perdão diante de Deus.

Por uma nova ética de convívio humano, sigamos olhando na direção dos rastros luminosos, na convicção de que vítimas nunca são culpadas.

Amém.

 

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