Morre irmã de Maninha Xucuru, Cimi emite nota pública

Tive a oportunidade única de conviver por alguns dias com a índia Xucuru Kariri, Maninha Xucuru. Na oportunidade, prestava um serviço silencioso a secretariar…

Tive a oportunidade única de conviver por alguns dias com a índia Xucuru Kariri, Maninha Xucuru. Na oportunidade, prestava um serviço silencioso a secretariar (entenda-se escrever, registrar) o que acontecia em um evento que reunia vários setores e entidades nacionais que lidavam com comunidades indígenas, em Maceió, na perspectiva de projetos de sustentabilidade.

Pude conhecer a força que emanava dela! Sua simplicidade, determinação, foco na luta e amor pela Mata da Cafurna, me marcaram a percepção.

Quando Maninha virou semente, custei acreditar. Tem personalidade que é tão forte, passando para os demais a impressão de que são imortais. Mas no corpo ninguém foge à regra, e de algum modo, seja por descaso, bala ou mau funcionamento de um órgão, nos vamos um dia.

A morte de sua irmã, causa sentido desconsolo nos que lidavam com sua representatividade. Em sintonia, o blog publica na íntegra uma nota do Cimi (Conselho Indigenista Missionário) da Regional Nordeste:

Nota pública: Cimi Regional Nordeste lamenta a morte da guerreira Raquel Xukuru Kariri

Com profunda tristeza e pesar o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) Regional Nordeste lamenta a morte da liderança indígena Raquel Santana da Silva Xukuru Kariri, às 18h30 desta terça-feira, dia 12 de junho, no hospital Santa Casa de Misericórdia, em Maceió (AL). Ela tinha 46 anos e era da Mata da Cafurna, Terra Indígena Xukuru Kariri.

Nesta segunda-feira, dia 11, Raquel passou por um procedimento cirúrgico para corrigir um problema cardíaco crônico na válvula mitral, comumente chamado de ‘sopro no coração’ (prolapso da válvula mitral). Após a cirurgia, Raquel foi encaminhada para os cuidados da Unidade de Terapia Intensiva (UTI). No final da tarde desta terça, teve um ataque cardíaco e não resistiu.

Raquel é filha de Antônio Celestino Xukuru Kariri, uma das lideranças mais velhas do povo, e irmã de uma das fundadoras da Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santos (Apoinme), Maninha Xukuru Kariri, falecida em 11 de outubro de 2006 por desassistência médica.

Há anos Raquel apresentava problemas na válvula mitral. Com o agravamento do estado de saúde, Raquel entrou no último mês de março na fila do Sistema Único de Saúde (SUS), aguardando por uma cirurgia, que ocorreu nesta segunda. A demasiada espera por este atendimento público debilitou gradativamente a saúde de Raquel até o trágico desfecho.

Gecinaldo Xukuru Kariri, marido de Raquel, explica que desde o último Encontro da Juventude Xukuru Kariri, em outubro de 2017, a situação passou a piorar de maneira mais enfática. Os cansaços eram permanentes a ponto de em duas ocasiões Raquel precisa ser levada à UPA de Palmeira dos Índios, município onde está localizada a Terra Indígena.

Em março uma crise mais forte a levou para o Hospital Geral do Estado (HGE), em Maceió. Raquel passou sete dias em macas espalhadas pelos corredores do hospital. Sem atendimento adequado, voltou à retomada da Fazenda Salgado, onde residia atualmente. Depois deste episódio, Raquel chegou a ser internada mais duas vezes no Hospital Regional Santa Rita.

Durante todo este período, os Xukuru Kariri pressionaram a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) e o SUS para que Raquel fosse internada na Santa Casa, hospital onde poderia realizar o procedimento cirúrgico. Gecinaldo Xukuru Kariri estava com tudo pronto dar entrada em uma ação judicial quando no dia 16 de maio saiu a vaga de internação para a realização da intervenção médica.

Mesmo com toda a fragilidade de saúde, Raquel vivia em uma área retomada pelos Xukuru Kariri. Organizava os principais encontros do povo e levou adiante o legado de lutas de sua família pela Terra Indígena. Sua vida inteira foi dedicada à causa indígena. “Nosso território, assim como está declarado na portaria, é bastante reduzido. A gente já achava pouco quando eram mais de 13 mil hectares, agora são menos de 7 mil. Não há como o nosso povo sobreviver por muito tempo”, declarou Raquel em 16 de dezembro de 2010quando foi publicada a Portaria Declaratória de demarcação.

Raquel sempre recordava o papel de Maninha, sua irmã, na luta dos Xukuru Kariri. “Maninha sempre chamou atenção para a terra. Depois que ela partiu, as lideranças ficaram um pouco perdidas, mas logo começou a surgir um grupo de jovens indígenas que começou a fortalecer mais a luta Xukuru Kariri por seu território”, disse Raquel na ocasião. Nos últimos anos, Raquel dava grande destaque para a juventude indígena e pela conclusão da demarcação, paralisada na fase de indenização às famílias não-indígenas.

O Cimi acompanha a luta Xukuru Kariri desde o final da década de 1970. Missionários e missionárias da entidade acompanharam Raquel crescer, tornando-se uma destacada guerreira Xukuru Kariri no seio de uma família talhada pela busca da ‘terra prometida’, parte da cosmologia Xukuru Kariri. Mesmo com todas as dificuldades enfrentadas pelo povo, além dos problemas de saúde, Raquel sempre se manteve forte e determinada, mas sem perder a ternura e o bom humor peculiares. Para todo o povo Xukuru Kariri, uma referência importante em muitos aspectos na vida cotidiana das aldeias; perda irreparável e dolorosa.

Neste momento de comoção e sensação de um vazio que fica em meio a estes tempos obscuros, o Cimi se junta em oração e solidariedade a Antônio Celestino, Gecinaldo Xukuru Kariri e todo o povo Xukuru Kariri que vive este duro golpe. Entre tantas batalhas travadas por Raquel, essa a grande guerreira não pôde vencer. Façamos a memória de seu legado, de sua luta e dos sorrisos de Raquel que mesmo em nossas lembranças iluminam esta noite tão escura.

Conselho Indigenista Missionário (Cimi) Regional Nordeste

Recife, 12 de junho de 2018

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