Emancipação: em livro intelectuais refletem nossa história

No final todos morreremos, mas a história que segue após os nossos passos deve levar nossas melhores contribuições.

O livro Alagoas 200, do jornalista e escritor Odilon Rios, é o presente de hoje, para nosso torrão natal, em mais uma festividade relativa à sua Emancipação Política.

Dialogando com seus entrevistados, o blog costura esse escrito em homenagem característica de quem ama: louvando o bom para sanar o que é ruim, na esperança de melhorar o todo.

Iniciando com Dirceu Lindoso, que nos diz de primeira: “Escrevi um artigo em que mostro que na formação das Alagoas a sociedade que vai ser alagoana depois de 1817 apresenta-se com uma dupla face: a da abundância tutelar e a da pobreza social.”

Sim, caríssimo Dirceu, nós que hoje somos os formadores da sociedade alagoana, ainda convivemos com essa dupla face, sendo esmagados pelo lado tenebroso que de algum modo, afeta ambos os grupos, pois a pertença verdadeira a esta terra está sempre na berlinda; quando os tutelados não desenvolvem com ela identidade raiz e os empobrecidos sequer conseguem tempo para cultivar amor.

Sávio de Almeida por sua vez, não nos deixa tão a sós:

“Eu me interesso por todos aqueles que são humilhados e ofendidos, por todos aqueles que têm sede e fome de justiça”.

E somos muitos! A humilhação não escolhe a quem, mesmo que a priori imaginemos que apenas os pobres são humilhados pela condição material e social que representam.

Alagoas humilha pela manutenção da “mendicância” nativa, que de cima para baixo, abarca os que vivem a pedir tutela, oportunidades de engajamento nas frestas dos poderes, chamemos isso “cargos comissionados”, “convites para festas”, “aprovação em editais” entre outras mazelas que rondam a “massa cheirosa”.

A classe dos ofendidos se torna intermediária, perdedora de direitos, a negociar por baixo, com carreiristas da política, empresários mequetrefes, e outros elos da corrente arcaica.

Os que têm sede e fome de justiça compõem a base piramidal esquecida. Famílias inteiras que choram a violência, a perseguição e as ameaças cotidianas.

Douglas Apratto afirma que “Alagoas é um enovelado de clãs e grandes (?) famílias que detém o domínio do aparelho estatal para seu bel prazer e este domínio, ainda vigora no século 21.”

Nós conhecemos este novelo social, com benesses políticas e econômicas que se legitimam e devastam mobilidade social, avanço cultural e crescimento histórico, por escassez de liberdade e espaços para respostas criativas, ou viver autônomo.

A capacidade de crescimento está diretamente ligada às ferramentas culturais, tecnológicas, que o indivíduo maneja. Como fazer isso sem Educação de qualidade?

Élcio Verçosa reforça, dizendo que: “A forma descuidada e sovina como o Estado de Alagoas e a esmagadora maioria de seus governos municipais têm tratado os prédios escolares, os docentes, os servidores, o modo como usam o setor educacional como moeda eleitoreira somente pode resultar no rendimento que a maioria de nossas crianças e nossos jovens podem, no fim, apresentar em termos de escolarização.”

Talvez este modo de relacionamento tenha sido responsável pela tarja de povo pouco letrado que ainda arrastamos história adentro, com reflexos diretos na manutenção do mal sem remédio, que é a política descompromissada.

Se o quadro desanima a gente, Francisco Sales não mede pessimismo aqui, ao dizer: “Infelizmente, vejo Alagoas refletindo ainda hoje os espelhos de 14 de outubro de 1859. Seus donatários negam liberdades, cerceiam projetos educacionais e quase todas as rebeldias se curvam ao primeiro beijo do Império.”

Como não pensar em tantos episódios recentes, que desenham exatamente este fenômeno, a se olhar no espelho imperial, e sentir a fraca brisa da liberdade no rosto?

Jorge Vieira complementa dizendo que “a História de Alagoas é marcada por grandes acontecimentos dramáticos para a vida dos povos indígenas e seus descendentes.”

A identidade alagoana é marcada pelos dramas que lhe desconfigura a pertença. Tem alagoano que vive esquecido da raiz indígena que lhe é própria. A invisibilidade grassa.

A complexidade permeia essa história que parece linear. Contudo, Osvaldo Maciel afirma diferente: “Parece-me ser mais produtivo afirmar que Alagoas, sua História e teoria social que se debruça sobre ela, é lacunar, cheia de buracos, crateras, vazios que precisam ser entendidos, pesquisados, etc.”

Dirá então, Golbery Lessa: “É a configuração particular do capitalismo, da modernidade das instituições pré-modernas em Alagoas que explica a pobreza e a riqueza material, a pobreza e a riqueza cultural e os vários outros aspectos da terra de Zumbi dos Palmares.”

A fala de Fábio Guedes tenta resumir: “Em Alagoas isso é ainda mais dramático, porque não é somente a pobreza material que determina a violência exagerada, mas também a falência das políticas públicas, a completa ausência de cidadania e cuidado com a formação das crianças e jovens.”

Então França Júnior contemporiza: “Não é fácil mudar, o que quer que seja, sobretudo por conta de estruturas ideológicas autoritárias bem arraigadas nas principais instituições de controle social, tais como o Estado e a própria mídia.”

No livro Alagoas 200, eu, Ana Cláudia Laurindo, finalizo respondendo a pergunta: O fim da nossa História será no dia em que Alagoas superar os piores índices sociais do país?

“Este dia, será então, o início de uma nova História, que por ora figura entre as quimeras idealistas dos bons conterrâneos.

Creio, contudo, que merece ser tratada com intenso respeito essa perspectiva que significará a luta de tantos. Devemos marchar para a construção desse dia.

Ser isolado, ou perseguido, não é tudo, apenas páginas a serem escritas e viradas.

No final todos morreremos, mas a história que segue após os nossos passos deve levar nossas melhores contribuições.

Não desisto de Alagoas.”

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *