De quais avós você fala?

Dia dos avós! Também sou avó. Uma data fofa! Um cabedal de beijos e abraços, em almofadas de ternura. E cá me detenho…nos píncaros…

Dia dos avós! Também sou avó.

Uma data fofa! Um cabedal de beijos e abraços, em almofadas de ternura.

E cá me detenho…nos píncaros da angústia imposta, nos quais os avós brasileiros amargam dores ancestrais, estruturais, sob algemas invisíveis e violência em forma de cascata, que de cima para baixo afoga, mistura cotidiano e lágrimas, enquanto maltrata e mata.

Avós da juventude negra dizimada, desesperançada! Quem lhes enxugará a torrente de mágoas?

O fracassado debruçado sobre o corpo mutilado da sua própria esperança de deixar algum legado!

Nestes avós quem vai pensar?

Avós da Praça de Maio, quem vai substituir as vozes das feridas mulheres argentinas, quando a agonia finalmente cessar?

Escravidão em padrões de corpos e cores, perfis de rostos e odores. Quem vai presentear os avós a quem o racismo feriu de desilusão e mau augúrio?

Avós de olhos opacos não interessam ao mercado.

Quem lembrou dos avós de Jesus no dia da cruz?

Vidas tecidas sobre a insegurança e o medo, marcadas pelo degredo de não pertencer.

Sem as senhas de entradas nos shoppings. Sem as cabeças enfeitadas do marketing. Avós da vida real, entre artesãos e estivadores, na recriação e na força de sustentação dos lares, o rosto sulcado pelo tempo e pelo desgosto, nas mãos ágeis e sábias das ternas memórias.

Avós de ontem, e de agora.

A benção lhes peço. A honra lhes devoto. Neste dia de profundo silêncio.

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