1º de agosto de 2000: memórias da enchente

Este se pretende um texto coloquial, como se fora contado em uma calçada nas noites de verão, sob lua e estrelas, para encher de…

Este se pretende um texto coloquial, como se fora contado em uma calçada nas noites de verão, sob lua e estrelas, para encher de curiosidade ouvidos infantis sequiosos de identidade e passado.

Era apenas mais uma manhã de inverno, eu saía de casa, na cidade de Matriz de Camaragibe para uma reunião na Secretaria de Educação em Maceió, no carro da 10ª Coordenadoria Regional de Ensino (hoje GERE) com outras pessoas ligadas aos setores educacionais.

Na estrada, o motorista experiente começou a perceber o deslizamento de barreiras, e águas descendo em tom torrencial, feito correnteza de rio. O instinto lhe deu o alerta: “precisamos voltar, senão ficaremos ilhados fora de casa! A ponte de Porto Calvo já estava com volume mais alto que o normal.” Ninguém contestou. Voltamos da estrada, pouco antes da Cerâmica Sacramento, já nas proximidades de São Luís do Quitunde.

Nosso silêncio de gente acostumada com enchentes, se anunciou.

Ao chegar em casa, coloquei o almoço das crianças e avisei que ninguém iria à escola naquela tarde. Fiquei observando o vai-e-vem das pessoas. Pois as áreas periféricas, construídas nas várzeas, já estavam transbordando e muitas famílias se ocupavam carregando os pertences em carros de mão e carroças.

Por volta de uma hora da tarde, um estranho filete de água começou a avançar pela margem das calçadas na Rua de Palha, local que não tinha histórico de alagamentos na parte onde morávamos. Mas a força daquela água fina alertou, e corri para organizar pertences também. Lembro que joguei todas as fotos e documentos em um lençol, fazendo com isso enorme trouxa, colocando esta na cabeça do filho mais velho, enquanto levava outros dois andando e o mais novo e uma sobrinha nos meus braços, na direção da Praça Bom Jesus, onde ficava a casa dos meus avós.

Deixando as crianças em segurança, voltei para chamar o resto da família e retirar o que pudesse, pois a enchente prometia ser grande. No tempo de alguns minutos, já encontrei as águas beirando a entrada da casa. Daí então, a tarde seguiu em uma luta grandiosa contra o tempo e a força das águas para salvar móveis e utensílios.

Corri ao supermercado para comprar velas, pois a enchente entraria pela noite e a escuridão seria certeira. O supermercado já estava sendo tomado pelas águas na parte de trás e grande rebuliço havia ali, no entanto ainda consegui comprar algumas velas, inclusive de sete dias, porque as demais o povo já tinha comprado.

Todos os amigos e familiares estavam envolvidos em lutas próprias, e quase ninguém dispunha de tempo para ajudar outras pessoas. Quem ousou fazê-lo entrou para as estatísticas dos muitos que ficaram ilhados em algum lugar improvisado, preocupados com familiares e sendo causa de preocupação.

No final da tarde a água já ameaçava me cobrir, e andei nas pontas dos pés para me salvar.

Ao anoitecer, apenas a Praça Bom Jesus e o Alto do Cemitério estavam secos. O rugido furioso das águas lembrava o mar, e a cidade temia. Carros serviam de abrigos nas partes citadas, prédios com andares ficaram lotados, ambas as igrejas abriram as portas, e muitas pessoas subiram em paredes, telhados e árvores, rezando para o dia amanhecer, ouvindo gritos e desabamentos, lutando para não dormir.

No dia seguinte, lama, miséria exposta e um sol radioso!

Mas aquele primeiro de agosto de 2000 marcou muitas histórias em Alagoas e Pernambuco.

Sobre o estado vizinho encontramos este relato:

“2000 – Entre os dias 30 de julho e 01 de agosto, fortes chuvas castigaram o Estado, inclusive a Região Metropolitana do Recife, deixando um total de 22 mortos, 100 feridos e mais de 60 mil pessoas desabrigadas. Cidades foram parcialmente destruídas, tendo ás águas que transbodaram dos rios levado pontes e casas.

As chuvas foram anunciadas com 40 dias de antecedência pelos serviços de meteorologia, mas as autoridades governamentais deram pouca importância à previsão. As chuvas atingiram 300 milímetros em apenas três dias e só na RMR aconteceram 102 deslizamentos de barreiras. No município de Belém de Maria, com 15 mil habitantes, 450 casas foram arrastadas pelas águas.

O centro de Palmares ficou complemente debaixo de água e em Barreiros a água atingiu o teto do hospital da cidade. Dos 33 municípios seriamente atingidos, em 16 foi decretado estado de emergência e em 17 estado de calamidade pública, entre os quais Rio Formoso, Gameleira, Belém de Maria, Goiana, Cupira e São José da Coroa Grande.

O presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, veio a Pernambuco observar de perto os efeitos da calamidade e, dias depois, autorizou a liberação de apenas 30% dos R$ 129 milhões que, segundo levantamento do governo do Estado, seriam os recursos emergenciais necessários para recuperação das áreas atingidas.”

(https://www.pe-az.com.br/o-estado/fenomenos-naturais/1400-enchentes)

Sobre Alagoas encontramos o trabalho do qual retiramos o seguinte trecho:

“As fortes chuvas ocorridas em Alagoas no final do mês de julho e início de agosto de 2000 provocaram nova
catástrofe no Estado. Segundo o jornal Gazeta de Alagoas do dia 03/08/00 o número de mortes causadas pelas chuvas que caíram em Alagoas chegou a 36, principalmente na região norte e na zona da mata do Estado.

De acordo com as informações divulgadas pela Coordenação da Defesa Civil no dia 02/08/00, o número de
desabrigados passou de 70 mil. Em 26 municípios foi decretado estado de emergência. Dentre as cidades que
registraram o maior número de vítimas estão Matriz do Camaragibe, com 15 mortos, e Passo do Camaragibe, São Luiz do Quitunde e Rio Largo, com cinco mortes cada uma.

Maceió e União dos Palmares registraram, cada uma, duas vítimas fatais das chuvas, enquanto que Satuba teve uma vítima. Oito pontes na Região Norte ficaram destruídas, deixando todos os municípios sem acesso por terra à capital. Outro fato verificado foram as epidemias e algumas moléstias de veiculação hídrica que atingiram as cidades. A incidência de sarampo, leptospirose, doenças infecto-contagiosas em geral, cresceram após as inundações. O Governador do Estado de Alagoas, Ronaldo Lessa, solicitou ao governo federal uma ajuda de 177,5 milhões de reais para sanar os prejuízos dessa enchente.”

(http://www.ctec.ufal.br/professor/vap/CheiaMundau2000.pdf)

E das nossas memórias reafirmamos a lembrança do quanto somos povos castigados e guerreiros, sobreviventes das catástrofes naturais e sociais, em uma terra que nos ensina tão pouco sobre amor, mas na qual aprendemos a amar, porque o instinto de luta pela vida nos revela a existência dessa energia superior nas vivências e descobertas.

Ao vilipendiado Rio Camaragibe, meus mais profundo respeito!

Ao povo alagoano e camaragibano, a reverência do blog neste aniversário de mais uma grande luta.

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